Rosto
Hoje deu-me para a auto-contemplação. Sentei-me na beira do regato, num ponto em que a água é calma, e observei o meu reflexo. No ver-me, quis ir além do rosto magro e encovado, da barba longa e das repas oleosas que caem sobre a minha testa. Para tal, fixei o olhar no olho inquiridor que vinha daquele, no espelho de água. Não me reconheci. Quanto mais me aproximava do rosto espelhado, mais distante de mim me sentia. A observar somente a íris, soube que estava a olhar para mais um animal, daqueles que eu contemplo. As mesmas questões surgiram. Em que pensa esta criatura? Será que organiza pensamentos? Será que sente frio pensando que se trata de uma praga, ou apenas reage, aconchega-se? Será que olhando uma fêmea sentiu ternura, ou a urgência cega de lhe saltar em cima?
Que estupidez. Sou eu! Afastei-me do regato por forma a contemplar aquela face. Deixei-me levar pelo novelo dos pensamentos e esqueci-me de que apenas tinha saudades do meu rosto. Aqui ele não me serve de nada.

