quarta-feira, abril 27, 2005

Rosto

Hoje deu-me para a auto-contemplação. Sentei-me na beira do regato, num ponto em que a água é calma, e observei o meu reflexo. No ver-me, quis ir além do rosto magro e encovado, da barba longa e das repas oleosas que caem sobre a minha testa. Para tal, fixei o olhar no olho inquiridor que vinha daquele, no espelho de água. Não me reconheci. Quanto mais me aproximava do rosto espelhado, mais distante de mim me sentia. A observar somente a íris, soube que estava a olhar para mais um animal, daqueles que eu contemplo. As mesmas questões surgiram. Em que pensa esta criatura? Será que organiza pensamentos? Será que sente frio pensando que se trata de uma praga, ou apenas reage, aconchega-se? Será que olhando uma fêmea sentiu ternura, ou a urgência cega de lhe saltar em cima?
Que estupidez. Sou eu! Afastei-me do regato por forma a contemplar aquela face. Deixei-me levar pelo novelo dos pensamentos e esqueci-me de que apenas tinha saudades do meu rosto. Aqui ele não me serve de nada.

terça-feira, abril 26, 2005

Testemunho

Que lugar ocupo eu nesta cadeia de existência? Os peixes estão cá para assegurar alimento a mim e às gaivotas, para assegurar a eternidade das espécies, e morrer. As gaivotas mantêm a população de peixes controlada, para que eles não se estrangulem a si próprios na ânsia de existir. Também têm sobre a quilha o dever de assegurar a perpetuação da espécie. E desta forma poderia falar de todos os animais que por aqui voam, nadam, caminham, rastejam. Até a água que sendo desprovida de vida, a distribui. Aqui papel fundamental. Sem duvida o principal.
Eu sou o Nada. O que retiro é tão escasso que influência tem nenhuma. O que devolvo, de tão insignificante que é, para nada contribui. Mesmo quando morrer, os meus restos em decomposição, servindo de abrigo e pasto a vermes, não serão mais que qualquer outra carcaça. E quanto à perpetuação da espécie, que dizer? O eremita é aquele que renuncia à própria condição humana, esquecendo que a sociabilidade é o grande trunfo do Homem. O eremita não é um homem, é um ser sem espécie, de reprodução impossível.
Hoje acordei com os primeiros raios do Pastor de Luz. Arrastei-me para fora do meu ninho de pedra e contemplei a beleza. Gaivotas voando, rasantes ao mar. O sol despertando por detrás daquelas montanhas longínquas, empurrando o manto negro na sua frente, os sons alegres dos passaritos da floresta, o orvalho brilhando sobre a erva.
Apercebi-me então da condição que aqui tenho. Sou a testemunha. Aquele que, sendo a excepção confirmará a regra. A minha consciência de humanóide permite-me avaliar tudo isto e catalogá-lo como lindo e importante. Esta reflexão leva-me a concluir que terei, um dia, que abandonar este ermitério, qual Zaratusta.
Só testemunha quem tem quem o ouça.

segunda-feira, abril 11, 2005

E a Lua?

Por estes dias o Sol mostra-se durante mais tempo. O ar está mais quente e explode vida um pouco por todo o lado. Nesta faixa de prado entre a falésia sobre o mar e a floresta flores surgem abundante e aleatoriamente, como se um Colosso pintor, descuidado, tivesse sacudido o seu pincel encharcado em múltiplas cores sobre este lençol verde. Da floresta vem o som histérico de pássaros que guerreiam, com a voz, pelo direito de semear eternidade.
Estou na orla da floresta. Repouso sentado contra o tronco de um ulmeiro, aproveitando a sua sombra. Na minha frente, a linha que se forma pelos tons azuis do mar e do céu.
Adormeço.

++zzzz++

Retomo a consciência e sobre mim vejo uma gigante bola branca. A Lua. Ela abate-se sobre o meu espírito. Quem é? Será um ente macabro que escolheu a escuridão para deambular, quando a luz é apenas pontual no céu? Esconder-se-á daquele que trás a Luz?
Persegui estas questões, que no fundo são apenas uma, enquanto o sol se cobriu e descobriu trinta vezes. Depois percebi. A Lua procura o Sol!
Sensualmente, numa languidez preguiçosa, noite após noite, vai-se sumindo sob o manto negro que aconchega as noites do Pastor de Luz.Submersos pela noite, por aquela noite, entregam-se aos prazeres celestes. Por fim, com a mesma volúpia, e talvez presa pelas últimas carícias solares, a Lua retira-se, até nova saudade. Então regressa. Claramente definha sem a luz do Sol.