O Sol Adormecido
O Sol Adormecido.
Magoei-me. É preciso tratar a escoriação. O tratamento começa com o ferver de água num púcaro. Lavo a ferida com essa água quente. Na que sobra, ainda colocada na força do fogo, coloco umas folhas de um arbusto que por aqui cresce. Ficam em infusão pouco tempo, só até ficarem moles, quase numa papa, depois coloco-as no ferimento. Ajuda a cicatrizar e acalma a dor, fazendo com que o meu corpo fique leve. Creio que desta vez o preparado ficou mesmo no ponto. Vou contar a minha aventura.
O torpor causado pela minha medicina fez com que eu adormecesse. O sono foi profundo e agitado. Acordei à força de um sonho violento, em que a minha cabeça foi arrancada pela garra de um grifo vermelho, de dentes enormes como espadas. Ao abrir os olhos, vejo que não estou na minha enxerga debaixo das pedras. Flutuo no firmamento! E como eu tinha razão! Os buracos do manto negro existem! Estrelas, bolas de gases…Balelas, digo-vos eu( ver 10/23/2004-"O Eremita")! Vejo os buracos enormes, como copas de oliveiras. Olho para baixo e vejo a Terra. Não redonda e achatada nos pólos, mas em forma de pêra. Curioso…. Concentro a minha atenção numa das copas de luz, e é o que basta para me impelir na direcção desses buracos brancos. Que vou eu encontrar do outro lado. Vou levitando e penetro na estrela. Quase imediatamente a seguir choco conta a luz. Sim, contra a luz. Imediatamente compreendo o que se passa quando se cerra a noite. Aquele estende o manto negro é o próprio sol. O manto negro é o seu agasalho de sono. Consigo imaginar o assombro dos homens de ciências quando eu lhes contar o que vi. Irão rejeitar-me como rejeitaram outros que mudaram as perspectivas com que se vê o mundo. Vou guardar este segredo para mim. Contemplarei agora o céu da noite com atenção, quem sabe se conseguirei ver dobras na colcha do Sol adormecido.
Não sei o que se passou depois do encontrão que dei ao Sol. Sei apenas que quando voltei a mim, estava deitado na areia da praia. É altura de voltar a fazer o remédio….

