Testemunho
Que lugar ocupo eu nesta cadeia de existência? Os peixes estão cá para assegurar alimento a mim e às gaivotas, para assegurar a eternidade das espécies, e morrer. As gaivotas mantêm a população de peixes controlada, para que eles não se estrangulem a si próprios na ânsia de existir. Também têm sobre a quilha o dever de assegurar a perpetuação da espécie. E desta forma poderia falar de todos os animais que por aqui voam, nadam, caminham, rastejam. Até a água que sendo desprovida de vida, a distribui. Aqui papel fundamental. Sem duvida o principal.
Eu sou o Nada. O que retiro é tão escasso que influência tem nenhuma. O que devolvo, de tão insignificante que é, para nada contribui. Mesmo quando morrer, os meus restos em decomposição, servindo de abrigo e pasto a vermes, não serão mais que qualquer outra carcaça. E quanto à perpetuação da espécie, que dizer? O eremita é aquele que renuncia à própria condição humana, esquecendo que a sociabilidade é o grande trunfo do Homem. O eremita não é um homem, é um ser sem espécie, de reprodução impossível.
Hoje acordei com os primeiros raios do Pastor de Luz. Arrastei-me para fora do meu ninho de pedra e contemplei a beleza. Gaivotas voando, rasantes ao mar. O sol despertando por detrás daquelas montanhas longínquas, empurrando o manto negro na sua frente, os sons alegres dos passaritos da floresta, o orvalho brilhando sobre a erva.
Apercebi-me então da condição que aqui tenho. Sou a testemunha. Aquele que, sendo a excepção confirmará a regra. A minha consciência de humanóide permite-me avaliar tudo isto e catalogá-lo como lindo e importante. Esta reflexão leva-me a concluir que terei, um dia, que abandonar este ermitério, qual Zaratusta.
Só testemunha quem tem quem o ouça.


1 Comments:
Certamente a pedido de muita gente voltaste a escrever... não é novidade, acho que escreves bem. Gosto das tuas descrições que nos transportam para cenários longinquos. Dá-me também a mim uma vontade de me isolar deste mundo, das confusões, dos atropelos do dia a dia, da vida perpetuamente repetida. Talvez a universidade do minho seja pequena demais para os meus sonhos. Talvez eu seja apenas uma ave sem coragem de voar...
o blog "A saída do cúbiculo mágico" tb é teu?
Enviar um comentário
<< Home