sexta-feira, julho 22, 2005

O Depois

“O depois vem sempre depois”, portanto não há muito a fazer senão tomar decisões que devem ser rápidas, para que surtam algum efeito. Se demorar demasiado tempo aqui neste impasse, aqui, passivo, perderei a espontaneidade que demonstrei com aquele sorriso que lhe enviei. É neste processo de decisões e indecisões de que se tece a vida de um homem. Das mais banais ás mais influenciáveis audácias. Poderia agora encarnar a postura que tenho tomado até aqui, e pura e simplesmente apregoar uma crítica a mais um processo humano, e talvez sugerir uma cura. Estaria a ser coerente comigo mesmo. Que se fôda! Afinal não estou em momento de grandes coerências e resoluções de elevada idoneidade, na minha mente bailam os olhos que me observavam lá de baixo. E já agora, quem nunca foi incoerente? Está a saber-me bem sê-lo!
Desço á praia. Ela aguarda-me sentada num rochedo e observando a minha desenvoltura. Quando chego perto dela, diz ela assim, Já te vi cá antes. É verdade, eu lembro-me.

Arrasta-se o silêncio, quebrada pela questão colocada. Ela quer saber quem sou. Sinto-me tentado a dizer que não sou ninguém. Um eremita, respondo. Estás um pouco desactualizado. Se persegues a Santidade não estás na época oportuna para te isolares do mundo, por amor a Deus. Quero saber o que é preciso fazer para ser santo nos dias que correm. Fundires-te com as pessoas, e fazer algo positivo por elas. Não creio que seja preciso actuar em nome de divindade alguma para ajudar alguém. Podes fazê-lo apenas por missão pessoal. E de Deus eu não quero nada. Não sei quem é. Quando ainda estava no vosso mundo, sempre que me falavam d’Ele, achava estranho apregoar-se a misericórdia e a solidariedade ao mesmo tempo que se ofereciam punições e uma caldeira eterna aos incumpridores, para que estes fervessem lá dentro. Mas que raio de eremita és tu então? Sou um proscrito da vossa nova religião. O culto do Eu, iconizado em diversas vertentes. Estava farto de ser mais um, de ser algo para os outros (quanto mais não fosse um número) sem saber o que sou para mim. Uh! Uma viagem pelo interior… E ela disse isto com um brilho de ironia nos dentes brancos. Queres saber quem és? Não! Quero saber o que significa isto que eu sou. Todos sabemos como somos, basicamente. O que não sabemos é porque o somos. Que melhor sítio para sabê-lo do que o ventre de onde todos saímos? E como o fazes? Como descobres esse significando? Passa um tempo cá, sem qualquer ajuda exterior, ferramenta ou passatempo. Verás o que significa estar vivo, logo o que tu significas. Que descobriste? Luta e sacrifício. Mas isto encontras até mesmo na tua vidinha de rotinas e compromissos. Agora, contemplação, busca, descoberta. Olhar o Sol a deslizar pelo céu e imaginar para onde vai, onde passa a noite. A Lua, porque se vai esfumando ao longo das noites? Não tens um tecto tão sugestivo como o meu lá, de onde vens! O Sol não vai para lado nenhum, nem se esfuma a Lua. Já tive aqui um velho a apregoar ciência. Agora vens tu, bela, desmentir o que eu vejo. Do que me ensinaram, há muito me esqueci, ou o quis esquecer. Que me importa saber exactamente o que se passa lá com os Astros! A mim interessa-me o calor que um dá, semeador de Luz e Vida, pragmático. A companhia que a outra me propicia, ainda que distante, nas noites em que o ar parece impregnado de um qualquer humor que nos faz nostálgicos. A vida aqui dá-me o direito de imaginar o que quer que seja, ninguém me impõe limites.

Ela fica a olhar-me, pensativa. Os seus olhos cor de gelo aquecem. Depois sorri e diz, A tua barba e cabelo são fundamentais nessa tua busca? Não. Começam mesmo a tornar-se incómodos. Vem comigo ao meu barco…Tenho lá tesouras.

quinta-feira, julho 14, 2005

Reencontro

Ao regressar do meu passeio pelo bosque, eis que vejo algo familiar a flutuar na agra. Trata-se do barco que trouxe aquele efémero amor de que vos falei anteriormente.
Dirijo-me para a orla da falésia e, uma vez lá chegado, coso o meu corpo ao chão e observo, escondido, a mulher que toma banhos de sol deitada na areia, lá em baixo. Quando a vi pela última vez, o seu corpo era lácteo e baço. Agora está dourada e brilhante. Sobre os auspícios do Sol ela se transformou, e a imagem que me surge é a de um fruto a amadurecer até atingir aquela tonalidade que parece gritar: Colhe-me! Saboreia-me!
Mais uma vez, aquela presença abate-se sobre mim com a força de uma tempestade. Mais uma vez apela a algo que não é compatível com a existência que escolhi.
Rodo sobre mim próprio para ficar com as costas no chão. Preciso de um momento para reflectir sobre este fluxo que me percorre os nervos e as veias.
Sou forçado a retractar-me sobre o que pensei quando a vi pela primeira vez. Não, o Amor não é isto. Isto é apenas uma urgência! Urgência de lhe saltar em cima! O sexo. A parte mais animalesca do comportamento humano. O último elo que nos cinge há mãe Natureza. E é este último grau de pureza que me coloca novamente na esfera do Homem. Sou um deles ainda! Não a criatura sem sexo que colei á minha definição de eremita. A visão desta mulher abala convicções…
Volto a olhar para baixo. Ela observa-me. Acena-me. Eu sorrio. E agora?

“O depois vem sempre depois.”