sexta-feira, agosto 27, 2010

Barba

É noite, e sinto a falta da minha longa barba. Tenho saudades de resolver os enigmas da vida pelo cofiar vagaroso dos meus pelos faciais. Encontrar beleza no funcionamento normal da natureza é bem mais fácil, quando se desfaz um nó entre os muitos que se formam nesta barba emaranhada.
Mas ela sempre cresceu, num movimento eterno, por certo ritmado pelas ondas do mar. Ou de um mar interior que devo cá ter. Quando ela parar de crescer, um oceano estagnou, e os meus olhos não estarão cá para ver.

Fuga

Acalma o animal que há em ti. Preserva um pouco do Mundo. Oferece-o aos que te visitam. Bloqueia os impulsos, para deixares sair os modos afáveis e cavalheirescos que usavas na outra vida. Até o mar te ajuda a nadar, porque não fazer alguém flutuar numa experiência excêntrica, o convívio com o excêntrico. Adapta o teu meio ao alienígena, porque, de facto, o alienígena és tu, lá de onde eles vêm. Hipocrisia? Nem a aranha é hipócrita quando tece a sua teia, que é sinónimo de morte. Guardo os teus grunhidos para espantar os predadores. Guardo os teus impulsos para proteger a tua vida. Se o teu pénis está erecto porque o Mulher cheira bem, disfarça e não tentes enfia-lo onde queres. Segue tu também, como espécime humano, um ritual. Sorte tens, que o teu ritual não é ridículo como o do pavão. Uma espalhafatosa plumagem, que o torna presa fácil. Mas não te iludas, porque também és presa fácil. Olha que o istmo que te une ao mundo, pode estar no contorno da anca de uma mulher.
Assim falaria o Sol, guardião do meu território, enquanto a minha pila palpitava ao ritmo das tesouradas que a mulher dava no meu cabelo. O sangue arrefeceu. Estava triste, mas conformado. Fala a voz da razão, o meu mundo chama-me, que precisa da minha contemplação, o meu olho de juiz. Desligado do Mundo dos homens estou, mas estou preso aos seus conceitos para sempre. A eterna contradição em que viverei. Pode parecer deslocada esta frase, a verdade é que poderia coloca-la em qualquer ponto deste relato.
Cabelo cortado e barba feita. Sem uma palavra, levanto-me e salto para o mar, de volta ao meu cantinho. A Mulher voltará ao seu porto, e falará disto que aconteceu. A excentricidade de um homem. Um anacoreta genuíno. Dirá que se sentiu atraída pelo maltrapilho ermitão? Gostaria de saber… Nunca verei a cor com que ela pintará o relato deste dia. Devo ser prático. O Pastor de Luz vai dormir em breve, e é difícil caçar no escuro.