A tarde já ia alta. Eu estava sentado sobre uma rocha a observar o fundo do mar costeiro. Gosto de ver as algas e anémonas a balançarem os seus apêndices ao sabor da maré. De longe chegou um rugido rouco e metálico, aproximando-se. Escondo-me. Se eu fosse a contar a quantidade de situações inquietantes que presenciei depois de ouvir um barco a aproximar-se, não chegariam a ler a descrição desta ocasião em particular. O barco entra saltitando pela enseada, parando já perto da zona da calma rebentação. De lá de dentro, uma silhueta salta para a água, com estrondo. A silhueta nada na direcção da praia, deixando atrás de si um rasto de espuma e de pequenas vagas, e quando assenta o pé na areia vejo o cabelo dourado, o corpo ondulado. É uma bela mulher!
Embasbacado, contemplo-a. Apetece dizer Daquela testa alva contempla-vos a beleza de Eva. Em Eva estavam reunidos todos os traços de beleza que se espalharam suas filhas. Claro que também poderia inverter completamente esta última afirmação, mas no momento que vivia, a Mulher estava em seu esplendor.
A tentadora senta-se na areia. Veste apenas um biquini regrado. Vendo os seus cabelos esvoaçando, invejo o vento, que os acaricia. Imagino-me a mim acariciando-os enquanto sinto o cheiro quente de um ventre fértil para a gestação do meu Amor. O seu beijo fresco, mas ardente, devolve-me à sociedade dos Homens. O mundo finalmente abre uma brecha ao meu cativeiro, mercê do amor de uma mulher, que o mesmo mundo acolhe com vontade, avaro em guarda-la, qual pedra preciosa. Deixa a tua solidão aí, e vem comigo viver a vida; Dela fugi, foi dura; Prometo-te paz! Basta isto para me convenceres, mulher.
Ergo-me e revelo a minha presença. Ela olha-me e levanta-se do chão com um sorriso e avança na minha direcção enquanto me dá as boas tardes. Como são belas as suas ancas, da forma como se agitam, sensuais. Estremecem as minhas ancas agora que corro fugindo, novamente da vida. Amanhã espero ter esquecido esta mulher.
Hoje amei-a genuinamente.