terça-feira, outubro 26, 2004

Outro eremita

Há muitos, muitos anos, existiu um home que possuia fama de santo. Um dia decidiu fazer-se eremita. Não fez a coisa por menos. Para estar, a seu ver, mais proximo do reino dos céus, escolheu como ermitério a árvore mais alta de uma floresta, e fez votos de que nunca mais de lá desceria. Para um eremita afamado de santo, as coisas são mais fáceis, de maneira que vinham romeiros e peregrinos vê-lo e prestar-lhe homenagem. E alimenta-lo...Aguentou longos anos lá em cima, mas, inevitavelmente, morreu. Caiu abaixo da árvore...
Eu apenas espero não cair no desespero da solidão. Eu não me sinto só, vivendo escondido. Apenas estou sozinho...

O Amor

A tarde já ia alta. Eu estava sentado sobre uma rocha a observar o fundo do mar costeiro. Gosto de ver as algas e anémonas a balançarem os seus apêndices ao sabor da maré. De longe chegou um rugido rouco e metálico, aproximando-se. Escondo-me. Se eu fosse a contar a quantidade de situações inquietantes que presenciei depois de ouvir um barco a aproximar-se, não chegariam a ler a descrição desta ocasião em particular. O barco entra saltitando pela enseada, parando já perto da zona da calma rebentação. De lá de dentro, uma silhueta salta para a água, com estrondo. A silhueta nada na direcção da praia, deixando atrás de si um rasto de espuma e de pequenas vagas, e quando assenta o pé na areia vejo o cabelo dourado, o corpo ondulado. É uma bela mulher!
Embasbacado, contemplo-a. Apetece dizer Daquela testa alva contempla-vos a beleza de Eva. Em Eva estavam reunidos todos os traços de beleza que se espalharam suas filhas. Claro que também poderia inverter completamente esta última afirmação, mas no momento que vivia, a Mulher estava em seu esplendor.
A tentadora senta-se na areia. Veste apenas um biquini regrado. Vendo os seus cabelos esvoaçando, invejo o vento, que os acaricia. Imagino-me a mim acariciando-os enquanto sinto o cheiro quente de um ventre fértil para a gestação do meu Amor. O seu beijo fresco, mas ardente, devolve-me à sociedade dos Homens. O mundo finalmente abre uma brecha ao meu cativeiro, mercê do amor de uma mulher, que o mesmo mundo acolhe com vontade, avaro em guarda-la, qual pedra preciosa. Deixa a tua solidão aí, e vem comigo viver a vida; Dela fugi, foi dura; Prometo-te paz! Basta isto para me convenceres, mulher.
Ergo-me e revelo a minha presença. Ela olha-me e levanta-se do chão com um sorriso e avança na minha direcção enquanto me dá as boas tardes. Como são belas as suas ancas, da forma como se agitam, sensuais. Estremecem as minhas ancas agora que corro fugindo, novamente da vida. Amanhã espero ter esquecido esta mulher.
Hoje amei-a genuinamente.

sábado, outubro 23, 2004

Os Peixes

Hoje acordei com os primeiros raios de sol, que bateram directamente nos meus olhos, pelas reentrâncias deste meu ninho de fragas, três ao alto e uma deitada sobre as outras. Desci à praia para colher mexilhões e lapas que depois comi mesmo cruas. Subi ao regato e dei violentos sorvos na água fresca. Tão fresca que me fez estremecer os dentes. Depois sentei-me sobre a relva e contemplei a ténue névoa que se eleva sempre sobre o pequeno curso de água, vi como a luz abrandava para contemplar aquela névoa, ultrapassando-a cuidadosamente. Vi como os peixes pastavam o lodo das pedras e pensei como tudo aquilo era belo. Gostava de ser peixe, viver uma existência submarina, num mundo completamente diferente. Olhar para os caules das árvores, apreciar o quanto cresceram durante a sua vida, e depois, nadando, subir até às suas copas submarinas e olhar para baixo e ver quão altas são. Voar seria assim possível para mim, já que não o posso fazer no nosso mundo sob-aquático. Os peixes voam, e ninguém o sabe, porque ninguém quer ver o evidente.
Há outra característica que também aprecio nos peixes, melhor seria dizer que invejo. Tomei conhecimento dela através de um homem que se perdeu por estas bandas, faz algum tempo. O homem tinha-se perdido pelos bosques cerrados que estão nos arredores do meu eremitério. Contara-me que estava perdido há horas, mas apenas o vi já quando principiava a tarde daquele dia. Vinha com fome e eu, como bom anfitrião que prezo ser ofereci-lhe um peixe que estava guardado para o meu jantar. Que bela ironia disse ele vou comer um exemplar do único animal que tem uma memória pior que a minha. Se tem algum jeito eu perder-me pelas terras que percorro desde petiz.
Perguntei-lhe como era a memória do peixe, o homem disse-me que era breve. De tal forma breve que estando num aquário pequeno, sente-se no oceano, visto que tudo o que vê é novidade já que tudo o que viu foi esquecido. Quero ser peixe para ser todos os dias maravilhado pelos encantos da natureza. Quero ser peixe, para nunca sentir a solidão. Quero ser um peixe e esquecer por onde andei e o que passei. Esquecer o que deixei para trás quando me tornei anacoreta, e o que me fez sê-lo.

O Ermita

Acredito que há alguém que ao fim do dia esconde o sol com uma manta negra. Mergulhamos em algo a que chamamos noite, e olhando para o alto vemos algo a que gostamos de chamar estrelas. Certo dia, um homem elegante disse-me que eram corpos celestes, feitas principalmente de gases, e que algumas eram mesmo mundos como o nosso, apenas diferentes por não terem neles criaturas vivas nem ambiente que as sustente. Olhei para ele, estupefacto. Pois não sabe o disparate que diz! Confrontei-o com veemência. E falei-lhe do manto que alguém nos coloca todas as noites no céu. As estrelas, repare que aquele manto já vem do início dos tempos, são buraquinhos que surgem entre as malhas do manto. É a luz do próprio sol que por eles passa. Basta olhar. A luz é idêntica.
O homem riu-se e chamou-me ignorante, disse mesmo que havia algo em mim de maravilhosamente selvagem e primitivo, e dito isto, apertou os botões da sobrecasaca e abriu a sombrinha, dizendo Proteja-se do sol, homem! Está a fazer-lhe mal!
Acolhi este comentário com indiferença. Penso que a estes homens com educação e formação seja mais fácil acreditar no que menos evidente é. A dificuldade para eles está em imaginar um manto maior que todas as suas cidades juntas. Nunca vi as cidades deles. Sempre vivi aqui, por entre estas fragas, junto a este mar imenso. Pelo menos que me lembre. Do resto já esqueci. Contemplo daqui tudo o que a natureza tem para oferecer. Vejo o sol, a lua, o céu azul, o negro das tempestades, a fúria do mar. E o manto negro, que alguém puxa ao fim do dia.