quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Umas Tesouras

Cinco minutos que pareceram cinco anos. Um sentimento de morte apoderou-se da minha alma, há tanto tempo excluída de qualquer contacto com uma mulher que não fosse a volúvel Lua, que todas as noites, indolentemente, se passeava pelo incaracterístico tecto do meu amplo quarto, aqui, em nenhures.
Lentamente recobro a lucidez perdida no momento do convite para subir a bordo. Umas tesouras! Há que tempos não uso qualquer ferramenta. Do Mundo trouxe apenas alguma roupa e um púcaro onde cozinho o que a Natureza me decida dar; onde preparo unguentos que curam as minhas feridas. E uma faca! Dá sempre jeito… E agora preparo-me para entrar numa máquina. Pistões, correias, bielas e cambota. Provavelmente um rádio transmissor, que mantém o tripulante atado ao Mundo como um cordão umbilical.
Cinco minutos que pareceram cinco anos, e estou a trepar pelas escadas de acesso ao convés do iate de quinze metros, com televisão, casa de banho (com água quente!) e quarto. E ali está o rádio transmissor, um tagarela por ora silencioso!
Já sentado numa cadeira, deixo-me tosquiar. Calmo como um cordeiro, sem falar. Com os olhos postos no chão vejo os cabelos que caem. Sedosos estão, porque a Mulher fez-me tomar um banho, como ela disse, a sério! Com champô e sabonete! No meu embasbacamento nem me ocorreu dizer-lhe que um banho a sério toma-se voando entre os peixes, no mar! Agora cheiro a flores das quais nunca captei o aroma. E vejo o meu cabelo a cair no chão… Não sinto nada, é cabelo…
Sinto, isso sim, o calor das pernas dela, quando elas se aproximam das minhas mãos, que deixei esquecidas sobre os joelhos. Há um torpor que me percorre o corpo. Nasceu do calor das coxas nuas que me cercam. A Mulher ainda está com o biquíni. Ah! Tão perto e tão longe! Mais agora, que as suas mão afagam a minha cara enquanto ela corta as minhas longas barbas! A volúpia que me ferve nas veias. Quanto eu queria beijar estes dedos estreitos e frágeis, mas há algo que bloqueia este impulso tão animal a que já me rendi. Um algo tão civilizado, tão humano, tão… social.
Pensava ter conseguido mais da minha reclusão.
Nada como uma Mulher para nos mostrar quem somos.