sábado, outubro 23, 2004

Os Peixes

Hoje acordei com os primeiros raios de sol, que bateram directamente nos meus olhos, pelas reentrâncias deste meu ninho de fragas, três ao alto e uma deitada sobre as outras. Desci à praia para colher mexilhões e lapas que depois comi mesmo cruas. Subi ao regato e dei violentos sorvos na água fresca. Tão fresca que me fez estremecer os dentes. Depois sentei-me sobre a relva e contemplei a ténue névoa que se eleva sempre sobre o pequeno curso de água, vi como a luz abrandava para contemplar aquela névoa, ultrapassando-a cuidadosamente. Vi como os peixes pastavam o lodo das pedras e pensei como tudo aquilo era belo. Gostava de ser peixe, viver uma existência submarina, num mundo completamente diferente. Olhar para os caules das árvores, apreciar o quanto cresceram durante a sua vida, e depois, nadando, subir até às suas copas submarinas e olhar para baixo e ver quão altas são. Voar seria assim possível para mim, já que não o posso fazer no nosso mundo sob-aquático. Os peixes voam, e ninguém o sabe, porque ninguém quer ver o evidente.
Há outra característica que também aprecio nos peixes, melhor seria dizer que invejo. Tomei conhecimento dela através de um homem que se perdeu por estas bandas, faz algum tempo. O homem tinha-se perdido pelos bosques cerrados que estão nos arredores do meu eremitério. Contara-me que estava perdido há horas, mas apenas o vi já quando principiava a tarde daquele dia. Vinha com fome e eu, como bom anfitrião que prezo ser ofereci-lhe um peixe que estava guardado para o meu jantar. Que bela ironia disse ele vou comer um exemplar do único animal que tem uma memória pior que a minha. Se tem algum jeito eu perder-me pelas terras que percorro desde petiz.
Perguntei-lhe como era a memória do peixe, o homem disse-me que era breve. De tal forma breve que estando num aquário pequeno, sente-se no oceano, visto que tudo o que vê é novidade já que tudo o que viu foi esquecido. Quero ser peixe para ser todos os dias maravilhado pelos encantos da natureza. Quero ser peixe, para nunca sentir a solidão. Quero ser um peixe e esquecer por onde andei e o que passei. Esquecer o que deixei para trás quando me tornei anacoreta, e o que me fez sê-lo.

1 Comments:

At 1:19:00 a.m., Anonymous Anónimo said...

fantástico como um momento torna a nossa vida numa espiral de sensações confusas e sentimentos antes reprimidos agora abertos ao mundo. Prontos a serem vangloriados por serem tão nobres e terem a coragem de se expor neste mundo em que para muitos são algo de secundário. Estou contigo meu amigo e espero ainda hoje poder-me encontrar contigo num desses recantos aquáticos e poder-te dizer um simples glup glup....

 

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