O Ermita
Acredito que há alguém que ao fim do dia esconde o sol com uma manta negra. Mergulhamos em algo a que chamamos noite, e olhando para o alto vemos algo a que gostamos de chamar estrelas. Certo dia, um homem elegante disse-me que eram corpos celestes, feitas principalmente de gases, e que algumas eram mesmo mundos como o nosso, apenas diferentes por não terem neles criaturas vivas nem ambiente que as sustente. Olhei para ele, estupefacto. Pois não sabe o disparate que diz! Confrontei-o com veemência. E falei-lhe do manto que alguém nos coloca todas as noites no céu. As estrelas, repare que aquele manto já vem do início dos tempos, são buraquinhos que surgem entre as malhas do manto. É a luz do próprio sol que por eles passa. Basta olhar. A luz é idêntica.
O homem riu-se e chamou-me ignorante, disse mesmo que havia algo em mim de maravilhosamente selvagem e primitivo, e dito isto, apertou os botões da sobrecasaca e abriu a sombrinha, dizendo Proteja-se do sol, homem! Está a fazer-lhe mal!
Acolhi este comentário com indiferença. Penso que a estes homens com educação e formação seja mais fácil acreditar no que menos evidente é. A dificuldade para eles está em imaginar um manto maior que todas as suas cidades juntas. Nunca vi as cidades deles. Sempre vivi aqui, por entre estas fragas, junto a este mar imenso. Pelo menos que me lembre. Do resto já esqueci. Contemplo daqui tudo o que a natureza tem para oferecer. Vejo o sol, a lua, o céu azul, o negro das tempestades, a fúria do mar. E o manto negro, que alguém puxa ao fim do dia.


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